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Conto Escrevivência Português

Irmãos

CAPÍTULO 1

Dois pretinhos se encontraram na esquina. 

Inevitável. 

Desconfortável. 

Apertaram as mãos. 

Antes se abraçavam. 

“Fala aí”, disse o militar. 

“Fala tu. E o trabalho?”, 

perguntou o universitário. 

“Escala tranquila, plantão sossegado. 

E tu, professor?” 

“Professor nada, bolsista. Mestrado.” 

Seguiram calados até o churrasco. 

“Vou ali.” 

“Vai lá.” 

Separaram. 

De amigos ouviram: 

“Que bom! Conversaram.”

CAPÍTULO 2

Churrasco animado. 

Do pai, aniversário. 

Do filho, batizado. 

Geral convidado: 

família, amigos, vizinhos, 

colegas de trabalho. 

Por isso os pretinhos voltaram. 

Há anos se mudaram. 

“Vai com Deus, irmão”, se desejaram. 

Hoje, não se falam. 

Um lá outro cá. 

Bebem e riem com outros. 

Entre si, rancor. Mágoa. 

Desgosto. 

Olhares trocados ao acaso. 

Semblantes sempre fechados.

CAPÍTULO 3

A cerveja acabou. 

Passou-se o chapéu. 

O sol caía. 

Avermelhava o céu. 

Pagode e samba. 

Bêbada dança. 

“Logo você” toca. 

Xande canta. 

O militar se agita. 

Grita: 

“Aí, comédia! 

Ativista de Face! 

Universitário de merda!”

Riso debochado. 

“Ih! Otário! 

Cortaram tua propina, 

pau-mandado?” 

Se encaram com raiva. 

“Tava demorando”, diz a Tia. 

Preocupavam.

CAPÍTULO 4

Tentaram segura-los. 

Em vão. 

Se encaram. 

Dedo em riste. 

Copos na mão. 

“Vacilão! 

Fala mal de polícia! 

Defende ladrão!” 

“Defendo justiça! 

Matam pobre pra patrão!” 

“Patrão!? 

É guerra, cuzão!” 

“Guerra!? 

Cês pegam propina! 

Armam o tráfico! 

Alugam caveirão!” 

“Caô! Tu vive a farda? 

Acorda! 

Tanto livro pra nada!” 

Mulheres gritam: 

“Gente! Separa!” 

Choro. Tensão.

CAPÍTULO 5

“O que deu nesses meninos!?”,

uma avó se preocupava. 

“Eram tão amigos.” 

“Têm uns quatro anos nisso. 

Era só no Face. 

Agora ao vivo,” 

explicou uma neta cansada. 

“Mas qual o motivo?” 

“Um troço político. 

Os protestos foram o início. 

Um mais certo que o outro pelo visto.” 

“E agora cara-a-cara. 

Na cachaça. 

Ai Deus… 

tô com medo disso…” 

disse a avó. 

Transtornada.

CAPÍTULO 6

A música parou.

A tensão aumentou. 

Olhos nos olhos. 

Vermelhos de ódio. 

“Tu se acha melhor que a gente. 

Estudou. 

Enbranqueceu. 

Aplayboyzou”, rosnou. 

“E tu?! 

Veste a farda, 

pega a arma 

e pensa que é Deus. 

Herói de playboy, 

diabo dos teus”, sussurrou. 

Cuspiu-lhe a cara. 

Uma cabeçada levou. 

O sangue escorreu. 

Um soco deu. 

Gritaria. 

Horror.

CAPÍTULO 7

“Parem já com isso! 

Afasta! 

Chega dessa palhaçada!”, 

a Tia se jogou. 

Entre eles parou. 

Braços os puxaram. 

Pararam. 

Tia por assim dizer. 

Parentesco não tinha. 

Mãe do aniversariante. 

Dos pretinhos, vizinha. 

Cresceram juntos. 

Da escola pra casa. 

Pai e mãe no trabalho. 

Na casa da Tia esperavam. 

Ela foi, tipo como, 

mãe coletiva. 

Os viu crescer. 

Deles tudo sabia. 

Agora chorosa 

os colocaria na linha.

CAPÍTULO 8

“Que vergonha! 

Quanta ignorância! 

Ó o exemplo pras crianças”, 

esbravejou a Tia. 

“Dois irmãos! 

De cor! 

De vida! 

Nada justifica essa briga! 

Um in-te-lec-tu-al. 

Outro po-lí-ci-a. 

Status, cartaz… 

mas cabeça ó: vazia! 

Feito bichos. 

Tanto sacrifício…” 

“Mas, Tia. Ele qu…” 

“Cala a boca, em nome do Senhor Jesus Cristo!”

Olhos arregalados. 

“Agora vão ouvir. Tô só no início!”

CAPÍTULO 9

“Quando eram pequenos, qual era a rotina? 

Polícia vinha. 

Prendia. 

Batia. 

Gente morria. 

Covardia. 

E universitário? 

Não se via. 

Vez ou outra aparecia. 

Fazia pesquisa. 

Perguntava e sumia. 

Dos nossos não tinha. 

Só branquinho, barbinha… 

Aí vocês estudaram. 

Passaram. 

Nossa! Quanta alegria! 

Lembram? 

Vai e faz diferença, pretinho! 

Todo mundo dizia”

Sorrriso. 

Nostalgia.

CAPÍTULO 10

 “De onde vem tanto veneno? 

Não entendo! 

Se mudaram. 

Não se veem faz tempo” 

“Eles brigam no Face direto, Tia”, 

se meteu uma prima. 

“É! Tô sabendo! 

Se xingam pela profissão. 

Mas e o que SÃO por dentro? 

Tinham várias ideias para mudar o bairro. 

Meninos de sonhos.

Eu lembro! 

Mas não. 

Atrás do diploma e da farda ficam se escondendo. 

Ajudar? Não. 

Só ostentam: 

autoridade e conhecimento. 

Marrentos. 

Me digam: 

que diferença tão fazendo?”

Silêncio.

CAPÍTULO 11

Tia virou as costas. 

Saiu.

A cigarra cantou e parou. 

Ninguém ouviu. 

Os pretinhos se olhavam. 

Calados. Bêbados. 

Humilhados. 

Pelo portão saíam convidados. 

Moças varriam o quintal. 

Outras lavavam louças. 

“Pelo menos não se mataram”, 

ponderou a avó, mais calma. 

“É. mas ficaram como? 

Arrasados. 

Já foram embora?” 

“Sim, já era hora.” 

“E agora? 

Como será que fica essa história?” 

Juntaram o lixo, secaram a pia, 

bateram a porta.

CAPÍTULO 12

Os pretinhos se encontraram na esquina. 

Inevitável. 

Desconfortável.

O universitário esticou a mão. 

O policial abriu os braços. 

Se puxaram na nuca. 

Forte abraço. 

Lágrimas nos olhos. 

“Po, irmão. Foi mal aquele dia. Desculpa” 

“Não foi só culpa sua.”

Se beijaram no rosto. 

Nas costas, socos.

Braços cruzados sobre o pescoço. 

Andavam rápido. 

Estavam atrasados. 

“Feliz aniversário, Tia!”,

falaram em coro. 

“Finalmente! 

Agora sim, gente!

Meus filhos chegaram! 

Vamos cortar o bolo!” 

recomeço…

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Um outro distanciamento social

Em tempos de COVID19, é muito angustiante ser da classe média de Helsinki enquanto minha família é da classe trabalhadora em Magé. O vírus é o mesmo, mas são mundos muito diferentes.

Aqui, mesmo num apartamento pequeno, é fácil trabalhar de casa. Somos só dois. Bem empregados e sem risco iminente de perder renda. Água limpa não falta na torneira. Não acaba energia nem internet. A temperatura está amena. Sem sintomas, dá para sair e se isolar nas florestas. É restrito? Sim. Mas em comparação com lá, é muito muito confortável.

Lá, alguns parentes têm espaço em casa, outros vivem apertados. Se faz sol, faz calor insuportável. Alguns na família têm ar-condicionado. A maioria tem ventilador. Não dá conta. Se chove, o entra-e-sai faz lama no chão da casa toda (fora goteira). Muitos têm crianças aceleradas acostumadas a correr soltas na rua. Hoje, ficam 24 horas em casa. Com mais consumo de energia, mais a energia acaba. Uns compram carro-pipa. Outros rezam por água na bica. Todos têm que comprar água filtrada. Com tanta gente na cidade, tudo fica lotado: rua, mercado, farmácia… algum banco fez plano estratégico para pagamentos de aposentados? Senão, o que mais vai ter é fila com gente do grupo de risco. Imprensados. Vários desempregados aconselhados a ficar em casa quando a possibilidade de renda depende diretamente de estarem nos lugares de maior risco (transporte, ruas…).

A angústia vem ao lidar com o fato de que virar classe média na Europa criou um abismo entre eu e os meus no Brasil. Eu evito reclamar, especialmente nas redes sociais, para não chorar de barriga cheia como canta Zeca. Também tento não me sentir culpado por estar onde estou. Afinal, eu tô vivendo o sonho que muitos tiveram pra mim.

Mas uma tristeza eu não consigo evitar, especialmente quando as desigualdades locais e globais ficam tão evidentes como agora: é preciso aceitar o fato de que ascender socialmente me distanciou da minha família em termos de bem-estar, segurança, saúde e qualidade de vida. Eu e muitos parentes inclusive vivemos em lados opostos da desigualdade. Por isso que quando falamos sobre a situação no WhatsApp, as vezes nem parece que falamos da mesma coisa apesar do vírus ser o mesmo.

Quer dizer, vivemos um outro tipo de distanciamento social. Um tipo permanente e dolorido. Diferente do distanciamento social que vai salvar tantas vidas nessa crise.