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Um outro distanciamento social

Em tempos de COVID19, é muito angustiante ser da classe média de Helsinki enquanto minha família é da classe trabalhadora em Magé. O vírus é o mesmo, mas são mundos muito diferentes.

Aqui, mesmo num apartamento pequeno, é fácil trabalhar de casa. Somos só dois. Bem empregados e sem risco iminente de perder renda. Água limpa não falta na torneira. Não acaba energia nem internet. A temperatura está amena. Sem sintomas, dá para sair e se isolar nas florestas. É restrito? Sim. Mas em comparação com lá, é muito muito confortável.

Lá, alguns parentes têm espaço em casa, outros vivem apertados. Se faz sol, faz calor insuportável. Alguns na família têm ar-condicionado. A maioria tem ventilador. Não dá conta. Se chove, o entra-e-sai faz lama no chão da casa toda (fora goteira). Muitos têm crianças aceleradas acostumadas a correr soltas na rua. Hoje, ficam 24 horas em casa. Com mais consumo de energia, mais a energia acaba. Uns compram carro-pipa. Outros rezam por água na bica. Todos têm que comprar água filtrada. Com tanta gente na cidade, tudo fica lotado: rua, mercado, farmácia… algum banco fez plano estratégico para pagamentos de aposentados? Senão, o que mais vai ter é fila com gente do grupo de risco. Imprensados. Vários desempregados aconselhados a ficar em casa quando a possibilidade de renda depende diretamente de estarem nos lugares de maior risco (transporte, ruas…).

A angústia vem ao lidar com o fato de que virar classe média na Europa criou um abismo entre eu e os meus no Brasil. Eu evito reclamar, especialmente nas redes sociais, para não chorar de barriga cheia como canta Zeca. Também tento não me sentir culpado por estar onde estou. Afinal, eu tô vivendo o sonho que muitos tiveram pra mim.

Mas uma tristeza eu não consigo evitar, especialmente quando as desigualdades locais e globais ficam tão evidentes como agora: é preciso aceitar o fato de que ascender socialmente me distanciou da minha família em termos de bem-estar, segurança, saúde e qualidade de vida. Eu e muitos parentes inclusive vivemos em lados opostos da desigualdade. Por isso que quando falamos sobre a situação no WhatsApp, as vezes nem parece que falamos da mesma coisa apesar do vírus ser o mesmo.

Quer dizer, vivemos um outro tipo de distanciamento social. Um tipo permanente e dolorido. Diferente do distanciamento social que vai salvar tantas vidas nessa crise.

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Transformações

Já se passaram cinco anos desde quando comecei esta página. As coisas mudaram muito desde 2014. Transformações pessoais, profissionais e políticas. Mas uma pergunta permanece forte no que eu considero ser meu papel nas interseções entre universidade, ativismo e transformações sociais: pra quê fazer ciências sociais quando nosso mundo cada vez mais desigual parece estar também ficando cada vez mais esquisito? Não me entenda mal. Essa não é uma pergunta fatalista. Pelo contrário: é uma questão de busca por sentido, definição de propósito e construção de esperança. E para lidar com as muitas dimensões desta questão, a escrita acadêmica institucionalizada não vai ser suficiente. Daí eu pensei em transformar esta página num espaço para trabalhar ideias que possam levar à algumas respostas.