“Passeio Etnográfico” na Maré Ocupada

Eu passei a maior parte do último sábado (dia 17) na Maré. A Maré é uma região formada por dezesseis favelas na Zona Norte do Rio de Janeiro. Desde março a Maré está ocupada pelas forças armadas. Eu comentei com uma amiga moradora que eu gostaria de ver como as coisas estão na favela ocupada. Eu tenho imaginado como a ocupação tem afetado o dia-a-dia do lugar. Então ela me levou pra dar um “passeio etnográfico”. Estas são algumas percepções que tive durante e depois do passeio.

Nos últimos anos eu tenho ido frequentemente à Maré para trocar ideias com jornalistas comunitários, fotógrafos ativistas e para conferir alguns projetos de comunicação.

Na maioria das vezes que eu fui lá eu passei um tempo e andei com as pessoas que conhecia.

Nessas situações, a presença de jovens traficantes armados ao ar livre sempre foi de certo modo algo que me deixasse meio sem saber o que dizer ou fazer.

Eu sempre tentei entender e perguntei aos moradores que conheço como que pessoas conseguem viver num contexto de ausência de segurança pública e o risco constante de conflitos armados.

Agora que a Maré foi ocupada pelas forças armadas em preparação para o processo de “pacificação” eu fico imaginando o que mudou.

Então quando eu saltei do ônibus na Brasil no último sábado eu decidi prestar atenção no que poderia caracterizar como diferença em relação às últimas vezes que estive por lá.

Por isso eu decidi caminhar pra dentro da favela ao invés de pegar um moto-taxi como eu fazia antes.

No caminho, eu senti que o lugar estava mais quieto do que eu me lembrava. Eram umas dez da manhã. Nas últimas vezes nesse mesmo horário eu lembrava das pessoas andando com bolsas de compras e trocando ideias nos portões.

Havia bem menos pessoas na rua dessa vez. Diferente do ano passado, eu também não vi traficantes armados nas ruas. Também não vi nenhum soldado das forças armadas ou da polícia.

Mas eu me senti um pouco bolado quando eu vi um grupo de homens no mesmo lugar onde eu tinha visto traficantes antes. Daí abaixei a cabeça e continuei andando pro lugar onde encontraria meus amigos.

Quando nossa reunião acabou, eu decidi andar com uma dos meus amigos da favela onde estávamos para a favela onde ela mora.

Ao sair do lugar onde nos encontramos, eu vi alguns jovens conversando na esquina onde drogas costumavam ser vendidas. Mas eu não quis encarar pra conferir se eles eram traficantes ou não.

Nessa hora os soldados já estavam na rua. Eles estavam plantados uns 200 metros de distância de onde os traficantes costumavam ficar ano passado.

Talvez o fato de eu ser um cientista social muito crítico ao processo de “pacificação” tenha afetado meu julgamento do ambiente naquele dia.

Mas a impressão que eu tive é que as pessoas estavam tensas enquanto os soldados estavam lá. Eu olhei nos rostos de algumas pessoas que estavam na rua. Elas pareciam apreensivas.

Os bares ali também pareciam mais quietos do que eles normalmente são naquela parte da favela. Eu perguntei a uma amiga se eu estava sendo paranóico. Ela disse que não.

Ao invés de atravessar a favela por dentro pela divisa (área que separa duas favelas dominadas por grupos criminosos rivais), nós andamos pela Brasil.

Alguns minutos depois nós chegamos à famosa feira da Maré. Eles vendem de tudo. Desde comidas à eletrônicos, roupas e até ferramentas para construção.

“Acho que vou dar uma volta na feira”, eu disse à minha amiga. Foi aí que ela ofereceu dar um passeio etnográfico comigo.

A feira pareceu muito mais animada do que a rua onde nos encontramos, mas isso não é surpresa já que a feira é o coração da Maré principalmente nos finais de semana.

O barulho das pessoas vendendo seus produtos, a música alta e a variedade de aromas me deixaram impressionado. A feira era muito maior do que eu tinha pensado.

Andar pela feira demanda tempo e paciência já que os corredores entre as barracas são bem estreitos. Mas as pessoas em geral pareciam calmas, felizes e animadas.

Enquanto a gente andava eu ficava imaginando se a animação tinha a ver com a ausência dos soldados.

Eu não vi nenhum. Minha amiga explicou que os soldados ficavam em outro lugar no final da feira.

Daí eu fiquei imaginando se isso acontecia por questões de mobilidade (deve ser difícil se locomover com todo o aparato militar na feira) ou se era uma decisão de deixar o mercado mais popular da região intacto em respeito à cultura local. Ainda não sei.

As coisas pareciam bem normais pra mim na feira (eu já tinha passado por ela nos anos anteriores, mas durante a semana).

Mas a percepção dos moradores sobre tráfico e segurança vieram quando minha amiga encontrou uns conhecidos pelo caminho.

Em certo momento, ela encontrou uma pessoa. Eles conversaram sobre a nova direção de uma associação cultural local.

A pessoa nos convidou para um evento na associação. Minha amiga deixou entender que estava feliz por finalmente ter gente lá sem ligação com o tráfico.

“A gente conversou com eles pra deixar tudo muito claro: nossa responsabilidade são as atividades culturais. O espaço físico é uma coisa. Os eventos são outra”, a pessoa explicou.

Eu entendi que os traficantes usavam o espaço físico da associação (talvez para festas, não sei). A conversa indicou que os traficantes ainda tem poder na favela.

A conversa também me mostrou os dilemas pelos quais pessoas que vivem no lugar passam para organizar eventos culturais independentes sem parecer que estão desafiando os traficantes.

Continuamos andando e falando sobre a diversidade da cultura local, de comida e de violência policial. Foi nessa hora que minha amiga encontrou seu irmão.

Ao marcar de se ver mais tarde, ele disse “tchau e cuidado…”

Fiquei curioso em saber porque ele tinha dito cuidado. Ela me explicou que com a presença das forças armadas as coisas andavam tensas na favela. Como os traficantes ainda estão lá, é difícil sentir ou prever quando vai ter conflito.

Logo depois, nós ouvimos auto-falantes anunciando eventos culturais na favela. Parecia o anúncio típico de algumas lojas. Mas aos poucos o som ia se aproximando.

Quando olhamos para trás vimos que os anúncios vinham do jipe das forças armadas.

Eles anunciavam um evento patrocinado pelo governo. No jipe, soldados bem armados prestavam atenção nas pessoas em volta.

Minha amiga me pegou pelo braço e me puxou do caminho. Ela parecia surpresa com o jipe anunciando o evento. Realmente pareceu muito esquisito ver as forças armadas anunciando um evento cultural.

“Tu reparou os caras sentados na esquina?”, ela me perguntou mais tarde. Na verdade eu tinha sentido o cheiro da maconha. “Aquela é a boca”, ela disse enquanto explicava o quanto é estrango ver soldados e traficantes tão perto.

Ela disse que foi por isso que ela me puxou. Não é muito interessante ficar tão perto do caminhão das forças armadas quando se sabe que tem traficantes em volta só observando.

Eu fiquei imaginando se os soldados sabiam que havia traficantes ali na hora. Eu imaginei que sim. Até eu que não moro lá percebi os caras.

Daí eu fiquei pensando em que tipo de acordo eles devem ter feito pra não entrar em conflito o tempo todo. Se tem acordo, como esse acordo é fechado? Eles se encontram pra desenrolar ou é algo que fica no não-dito?

Não perguntei. É definitivamente muito cansativo ficar falando de crime, violência e conflito o tempo todo. Daí começamos a falar de infância, família e como as favelas e minha cidade natal tem a rua como extensão de casa.

Depois de algumas horas, eu decidi deixar ela em paz e ir embora. Ela andou comigo até a Brasil (eu teria me perdido sozinho nos tantos bequinhos da favela).

Enquanto eu esperava o ônibus, eu pensei que a gente sabe muito pouco sobre a Maré mesmo passando por ela todo dia no transporte da minha cidade pro centro do Rio.

A gente de fora só lê as notícias, vê os carros da polícia e forças armadas nas entradas da favela e imagina o quanto perigoso deve ser lá dentro.

Sabemos muito pouco ou na real nos importamos muito pouco com as dinâmicas sociais e culturais num lugar onde a ideia de “paz” tem historicamente sido conectada á conflitos armados.

Estar lá mesmo que muito esporadicamente nos últimos anos tem feito uma grande diferença na minha percepção da favela e dos moradores. Hoje em dia, penso no quanto minha cidade tem em comum com as favelas.

Também tem definido como eu percebo o programa de “pacificação”. Apesar do potencial, eu não acredito que o programa vai funcionar.

A “paz” não é de fato para as pessoas que moram lá, mas pra quem mora fora. Se a violência estiver controlada na favela, os administradores e os moradores de fora da favela estarão satisfeitos.

Enquanto isso, moradores de favelas vivem uma intensa variedade de situações contraditórias e perigosas enquanto esperam ser capazes de andar tranquilamente na favela onde nasceram (como diz o rap).

E o processo de “pacificação” com sua ênfase em armamento pesado e controle militar fortíssimo dos espaços populares definitivamente não é a melhor forma de alcançar a paz que os moradores desejam.

One thought on ““Passeio Etnográfico” na Maré Ocupada”

  1. Belo relato. É muito difícil para alguém que nunca foi à Maré, como eu, imaginar o que acontece. Imagino que teremos que esperar anos até que a tão falada pacificação dê frutos, Vamos esperar que sejam positivos. Temo pelo que possa acontecer pelo caminho. E, numa análise mais profunda, imagino que discutir a pacificação das favelas do Rio – e de tantos lugares do mundo – é sinônimo de discutir a política de combate às drogas, e propor mudanças à forma de como ela é feita.

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