Midiativismo de favela: o morador também tem voz

Entrevista publicada no Observatório de Mídia e Violência (Universidade Federal Fluminense – UFF) em 11/10/2014.

As favelas cariocas são ainda retratadas como territórios de violência nos principais noticiários. Com isso, seus moradores são constantemente criminalizados ou vitimados, sem que suas vozes sejam realmente retratadas na grande mídia. Leonardo Custódio, doutorando em comunicação na Universidade de Tampere, Finlândia, estuda há cinco anos esse cenário e as formas como revertê-lo. De mídias comunitárias a coletivos entre favelas, Custódio investiga as ações de midiativismo em favelas do Rio de Janeiro. Para ele, o valor de ações cidadãs como o midiativismo está na possibilidade que os moradores de favelas encontraram para explorar espaços que acomodem sua insatisfação com o modo que são tratados no cotidiano. Confira a entrevista completa.

OBSERVATÓRIO: Você fala em midiativismo de favela e classifica alguns tipos de ações dentro dessa área, como mídias comunitárias e coletivos. Você poderia explicar como chegou a esse conceito e falar um pouco mais sobre os tipos de midiativismo nas favelas cariocas?

LEONARDO: A ideia de midiativismo não é minha. Ela está presente tanto na literatura acadêmica quanto no cotidiano de pessoas que usam mídia como instrumentos e plataformas para diversas formas de ativismo. No Brasil, por exemplo, a ideia de midiativismo está diretamente relacionada à ação de coletivos como a Mídia Ninja, o Coletivo Mariachi, Rio na Rua e outros grupos que ganharam maior visibilidade durante os protestos de 2013, ao criar contra-discursos, gerar mobilização popular e inclusive participar de ações diretas confrontacionais. O site Rebaixada (http://rebaixada.com.br/– parte do projeto de mestrado do jornalista Arthur William) faz um mapeamento bem bacana de atores midiativistas do Rio.

Ao me referir à “midiativismo de favela,” meu objetivo é focar na experiência do uso de mídias por pessoas que sofrem a vida toda com as consequências da desigualdade social. Uma coisa dos protestos de 2013 que pouca gente fala é que, em certo momento, os moradores de favela que participavam começaram a fazer demandas específicas. “Se o gigante acordou, a favela nunca dormiu”, diziam uns cartazes. “Vem pra rua, morador”, especificava uma hashtag. Foi naquele momento que eu pensei: se midiativismo tem a ver com o uso de mídias para propósitos revolucionários de transformação social e política, como esse processo se dá a partir da favela? Que tipo de mudança os moradores que usam mídias como parte de formas diferentes de militância desejam alcançar? Que estratégias e repertórios individuais e coletivos eles usam para mobilizar, compartilhar pensamento crítico e confrontar o Estado que mata e que, de diversos outros modos, oprime os cidadãos de baixa renda? Quais as motivações e os objetivos que eles têm para se engajar nestes processos? É nesse tipo de processo sobre o qual eu procuro refletir quando falo de “midiativismo de favela”.

– Em artigo publicado no Observatório da Imprensa, você afirma que os noticiários continuam a criminalizar as favelas. Hoje, em sua opinião, como a grande imprensa – jornais como O Globo, O Extra e O Dia, no Rio – pauta as favelas e, mais especificamente, o processo de pacificação?

No noticiário (não só nos jornais impressos, mas no rádio e na televisão), as favelas ainda são majoritariamente retratadas como territórios de violência. Claro que há as concessões: às vezes, tem a folclorização do favelado como o pobre trabalhador que sofre, mas é feliz; outras vezes tem a valorização da cultura da favela. Mas, na maioria das vezes, os moradores de favelas são apresentados como vítimas ou como coniventes com o tráfico. É como se a favela fosse um incômodo para a cidade. Por exemplo, diversas vezes um tiroteio na favela entra no boletim de trânsito de rádios. “Conflito de traficantes na favela tal dificulta o trânsito na Avenida tal. Avisamos aos motoristas para fazer um desvio…”. Já percebeu? E ao morador, não tem aviso? É tipo a música “Construção”, do Chico Buarque: a favela atrapalha o trânsito.

Em relação à “pacificação”, vendo o noticiário diariamente dá para supor que as empresas apoiam a política do governo do Estado. Raramente o governo é confrontado nas grandes empresas sobre o porquê de tantos problemas continuarem nas favelas “pacificadas.” Aí a pauta parece desculpa. Na semana do primeiro turno das eleições 2014, por exemplo, a explicação para os confrontos em favelas “pacificadas” foi de que eles foram orquestrados pelo tráfico para desestabilizar o governo nas eleições. Ora, quem acompanha os relatos dos moradores de favelas sabe que os confrontos estavam acontecendo bem antes daquela semana. Mas não lembro de ter lido ou ouvido jornalistas perguntarem ao Beltrame ou ao Governador: “por que sempre há problema?”, “Se está pacificado, por que tem tanto tiroteio?” Essas perguntas e outras não são feitas com frequência.

– Qual a principal discrepância daquilo que as mídias comunitárias de dentro das favelas pautam do que é noticiado nos grandes jornais? O que precisa ser especificamente mudado?

Em geral, as pautas de dentro para dentro das favelas valorizam a cultura local sem folclorizar, anunciam serviços que possam ser úteis aos moradores e tratam os leitores e ouvintes com respeito. Esses são só alguns exemplos. Na mídia comunitária, favelado não é sinônimo de pobre coitado, de vagabundo, de funkeiro (como se ser funkeiro fosse ruim) ou de cúmplice do tráfico. Há respeito. E talvez essa seja a principal mudança que a imprensa corporativa precise fazer. Com muita urgência.

– Como o midiativismo de favela poderia pautar a grande imprensa? Existe alguma forma de pressão popular realizada por esses meios que poderia trazer para os grandes jornais as vozes de dentro das comunidades?

Eu não sei se pessoas que moram em favelas e praticam o midiativismo visam pautar ou deveriam pautar a grande imprensa. A grande imprensa é que deveria mudar sua postura ao tratar de temáticas relacionadas às favelas e à periferia.

O que o midiativismo de favela pode representar – e representa – são formas de contra-informação, de mobilização popular e de compartilhamento de pensamento crítico sobre tudo o que de certo modo ajuda a manter a posição do morador de favela na parte de baixo da hierarquia social.

Ou seja, eles geram conhecimento sobre a favela tanto para moradores quanto para pessoas de fora – como são a maioria dos jornalistas. E eles confrontam o jornalismo corporativo sempre que os jornalistas das grandes redações reforçam a representação negativa da favela. Olhando da parte de baixo da desigualdade social, as empresas de comunicação fazem parte do sistema de instituições que prendem os cidadãos de baixa renda na parte de baixo.

Nesse caso, o que eles estão fazendo é questionar a pauta e o papel da imprensa corporativa na sociedade. A imprensa – que é formada por cidadãos também – deveria prestar mais atenção nessas vozes e nessas resistências e refletir sobre como eles poderiam se pautar para não sofrerem mais esse tipo de pressão.

– Você afirma que o “midiativismo de favela é uma importante reação de baixo para cima contra a vitimização e criminalização dos territórios populares”. Quais seriam os próximos passos dentro desse midiativismo para que se deixasse de vitimar e criminalizar as favelas em toda a sociedade?

Não há próximo passo: esse é o processo. É uma luta do cotidiano – de todo o dia – pra questionar e desafiar essas representações negativas. E que fique claro: não é só uma coisa que a mídia cria.

Nossa sociedade é preconceituosa. Nossas instituições sociais discriminam as pessoas de baixa renda da periferia. A mídia corporativa reforça essa discriminação. E esse reforço ajuda a perpetuar ainda com mais força essa condição que faz com que a palavra “favelado” seja praticamente um palavrão desde que a favela surgiu há mais de 100 anos atrás até hoje.

Acabar com isso não depende só das reações de quem é discriminado. É preciso que a sociedade se transforme. Talvez a criminalização e vitimização dos moradores de favela nunca acabem, pois está tão sedimentada no modo de nos relacionarmos como sociedade desigual e injusta. Mas o que tem acontecido é que cada vez mais pessoas estão mudando de postura e confrontando preconceitos e discriminação.

E aí está o valor de ações cidadãs – como o midiativismo – de moradores de favelas: não só confrontam e mobilizam, mas exploram espaços e estratégias diferentes para acomodar um número cada vez maior de moradores insatisfeitos com o modo que são tratados no cotidiano.

Em um exemplo hipotético, mas realista, um morador da Maré se conecta com uma galera do Jorge Turco no Facebook pra fazer um twitaço em solidariedade ao moto-taxista assassinado no Alemão. Esse twitaço se complementa com uma plenária na favela pra pensar um protesto. A plenária é gravada, colocada no Youtube e vista no Morro dos Macacos, no Borel, no Estado em Niterói. O protesto é marcado e diversas pessoas de favelas diferentes se juntam na rua contra a violência policial. Imaginou?

Pois é. Isso tudo está rolando por aí o tempo todo em várias favelas diferentes. Na televisão não passa, no rádio não se fala e no jornal não se escreve. Mas está rolando. E aos poucos está crescendo. Se a mídia continua criminalizando, várias pessoas estão revertendo o processo e mobilizando cada vez mais para uma transformação social lenta, mas muito significativa. Esse é o poder transformador de ações como midiativismo e outras formas de ações cidadãs dentro, fora e entre favelas.