Favela Digital: O Outro Lado da Tecnologia [Resenha]

Resenha do livro “Favela Digital: o Outro Lado da Tecnologia“, de David Nemer (2014) originalmente publicado em inglês no site LSE Review of Books em 13/10/2014.

As vezes, livros acadêmicos não devem ser avaliados de acordo com suas conclusões ou argumentos, mas também pelos significados que carregam em si. Tipo, parafraseando McLuhan, as vezes o livro é a mensagem. Estou pensando especificamente sobre estudos sobre o cotidiano e as ações de pessoas que sofrem com e lutam contra as consequências da desigualdade social, como os moradores de favelas no Brasil, por exemplo. Na minha pesquisa, eu tenho frequentemente ouvido moradores de favela reclamarem sobre como muitos de nós pesquisadores os tratam como ratos de laboratório. Nesse caso, a forma como acadêmicos escrevem seus livros e conduzem pesquisas pode se transformar uma situação de insensibilidade e desconfiança em uma relação de respeito mútuo.

Essas reclamações dos moradores não são infundadas. Pesquisadores de fato enfrentam alguns perigos enquanto fazem suas pesquisas sobre as pessoas de baixa renda dos centros urbanos. Um desses perigos é a reprodução de representações negativas do cotidiano da favela. Nos nossos esforços de denunciar injustiças sociais, nós podemos acabar reforçando discursos que vitimizam ou exotizam as favelas, por exemplo. Outro perigo – talvez na verdade um problema recorrente – é que nós impedimos que moradores de favelas tenham acesso ao nosso livro ou relatório final. Nós frequentemente não fazemos muito esforço para traduzir nossos textos ou torná-los mais acessíveis aos nossos informantes. Consequentemente nós podemos acabar reproduzindo uma lógica colonialista como acadêmicos que exploram histórias de vida e testemunhos “pela ciência” sem retornar o conhecimento que produzimos para o uso e avaliação das próprias comunidades locais que estudamos.

Como nossa forma de escrever pode ajudar a lidar com esses perigos de pesquisa? Uma forma é usar nossos livros como oportunidades para construir diálogo entre nós acadêmicos e as pessoas cujas ações nós estudamos. É isso que faz do livro de David Nemer – Favela Digital: o Outro Lado da Tecnologia – um trabalho acadêmico que anima e dá um gás à forma de como fazer trabalhos acadêmicos. Como mensagem, o livro diz: “quando fazemos pesquisa, nós podemos e devemos também nos comunicar com as pessoas em cujas ações nós nos interessamos.” O livro é um exemplo excelente de como pesquisadores, ativistas e populações locais podem construir parcerias que beneficiem a todos os envolvidos com novos conhecimentos e ideias sobre formas de – nesse caso específico – usar as mídias digitais de uma forma mais crítica no cotidiano.

Olhando rapidinho, Favela Digital é um livro simples e visualmente muito bonito. As 128 páginas combinam citações curtinhas e comentários com fotografias que retratam o uso de novas tecnologias de midia em favelas de Vitória, Espírito Santo. Mas rapidinho se vê que a abordagem simples não peca pela falta de reflexões críticas. As citações incluem trechos de entrevistas com moradores junto com falas acadêmicas. Ao coloca-las juntas como um só argumento, Nemer critica tanto as abordagens às novas mídias por um viés excessivamente tecnológico quanto às abordagens colonialistas sobre os pobres de centros urbanos. O argumento dele é bem claro. Nós não devemos ignorar a agência das pessoas – incluindo as pessoas pobres – quando avaliamos e promovemos os usos das tecnologias de mídia para transformação social.

O livro poderia ser mais forte em alguns aspectos e teria se beneficiado de mais informações sobre o contexto. Para um leitor que não é familiarizado com o Brasil, seria útil ter explicado as semelhanças e diferenças entre favelas e outras formas de conglomerados urbanos em outras partes do mundo. O autor também poderia ter refletido sobre a relevância de focar numa cidade que geralmente não é associada à favelas como são Rio e São Paulo. Além disso, o livro não dá uma explicação sobre o que são as organizações envolvidas no projeto. O “Ateliê de Ideias” e o “Varal Agência de Comunicação” são ONGs ou coletivos de base criados por moradores? Quais as suas relações com as populações locais? Respostas à essas perguntas poderiam ter permitido ao leitor com pouca familiaridade a entender um pouco mais do contexto sociopolítico do estudo.

Mas estes problemas não prejudicam a característica mais importante do livro. Favela Digital demonstra os esforços de um pesquisador que mostra respeito e compartilha o conhecimento adquirido com os próprios moradores da favela. As fotos lindas mostram pessoas de uma forma muito sensível e responsável. Num contexto onde moradores de favelas são tratados constantemente como criminosos ou são estigmatizados, essas imagens podem criar uma sensação positiva de poder e orgulho. Os textos curtos tanto em inglês quanto em português também criam uma oportunidade para moradores lerem, avaliarem e usarem o livro como uma base para suas próprias discussões sobre seus próprios usos de mídias digitais. Acredito que seria importante que esse livro circulasse em escolas públicas. Como Paulo Freire dizia, as pessoas se envolvem com educação com mais entusiasmo quando estudam assuntos que se relacionam com suas experiências de cotidiano. Assim, o livro de David Nemer definitivamente contribui para a promoção de pensamento crítico entre moradores de favelas.

Pra concluir, Favela Digital pode não seguir o formato padrão de textos acadêmicos. Mas por que deveria? Talvez se tivesse estaria agora coletando poeira como mais um livro sobre favela nas prateleiras das universidades. No entanto, como é, o livro consegue fazer o que muitos de nós acadêmicos queremos e o que tantos outros nem percebem que deveríamos fazer: comunicar nossas teorias de forma clara, acessível e ainda assim crítica com a sociedade especialmente com aquelas pessoas do lado menos privilegiado da desigualdade social. O livro é um exemplo de como pesquisa acadêmica também pode gerar um bem valioso nos processos de transformação social. Para aqueles entre nós que fazem pesquisas sobre favelas no Brasil e em outros lugares, Favela Digital é uma inspiração.