“O aspecto que mais me chamou atenção foi como a comunicação comunitária acontece”

Entrevista sobre o Projeto de comparação da Mídia e Jornalismo nos BRICS publicada no jornal O Cidadão da Maré em 14/10/2014.

Pesquisador brasileiro fala sobre pesquisa que investiga sistemas de mídia nos cinco países que integram o bloco econômico conhecido como BRICS. Leonardo Custódio (35) nasceu em Magé, município localizado na Região Metropolitana do Rio de Janeiro, e desde 2007 mora na Finlândia. No país escandinavo, fez mestrado (2007-2009) e hoje cursa o doutorado, na Escola de Comunicação, Mídia e Teatro (Universidade de Tampere). Custódio destaca o tema de sua pesquisa pessoal, iniciada em 2009 e com término previsto para 2015. “Investigo as motivações e objetivos que moradores de favela têm para usar mídias em suas lutas diárias contra as consequências do preconceito e desigualdades sociais.”

Na entrevista a seguir, Leonardo Custódio cita algumas semelhanças e diferenças existentes nos sistemas de mídia nos cinco países que integram o BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul). E tem uma esperança: que essa pesquisa tenha resultados práticos. “Considerando as coisas como são, ter um diálogo dessa amplitude parece utópico, mas precisamos contribuir de alguma forma, certo?”, afirma ele.

DANIEL ISRAEL: Qual era o objetivo da pesquisa quando começou, em 2011?

LEONARDO CUSTÓDIO: O “Projeto BRICS” está em andamento no período 2012-2016 e é coordenado pelo professor Kaarle Nordenstreng na Universidade de Tampere. O objetivo é investigar as semelhanças e diferenças da mídia nos cinco países. Temos três temas teóricos básicos: a questão do sistema midiático; o jornalismo e a questão da liberdade de imprensa. Empiricamente, nós abordamos questões como participação cidadã na mídia e sociedade; a orientação profissional dos jornalistas e a educação em jornalismo.

DI: O que é possível concluir, a partir dos três enfoques determinados para a pesquisa (sistema de mídia; mídia e jornalistas inseridos em estruturas de poder; e educação jornalística), quando da última atualização do projeto, em 2013?

LC: Por enquanto, não temos conclusões comparativas. Ainda estamos no processo de coleta de dados em cada um dos países. A ênfase está por enquanto na questão do jornalismo. Alguns resultados serão publicados ano que vem em um livro que já está em fase de revisão. Por enquanto, a publicação estará somente em inglês.

DI: Quais as principais diferenças que você pode destacar nos sistemas de mídia dos países-membro do BRICS? E as principais semelhanças?

LC: Do primeiro levantamento que fizemos, o aspecto que mais me chamou atenção (e essa é uma opinião minha, não necessariamente do projeto) foi o fato de como a questão da comunicação comunitária acontece nos cinco países. Enquanto Brasil, Índia e África do Sul têm um setor bem diverso e dinâmico de rádios comunitárias, Rússia e China não tinham nada parecido. Inclusive os colegas desses dois países tinham dificuldade em entender o que comunicação comunitária significa na prática, já que pra eles era desconhecido. Essa impressão está relatada num artigo acadêmico (acesse aqui).

DI: A página criada na Internet para divulgar o projeto de pesquisa traz, entre outros textos, dois artigos publicados em veículos de grande audiência: um nos EUA, o outro na Rússia. Ambos (disponíveis aqui e aqui) suspeitam do futuro do BRICS, mas em momento algum seus autores tratam do sistema midiático em cada um dos países-membro. Como ampliar esse debate dentro das realidades nacionais (por exemplo, no Brasil, destaca-se o oligopólio da mídia comercial; na Rússia e na China, há franca censura aos veículos e restrições à livre navegação na Internet) e envolver a maioria dos profissionais que atuam na mídia?

LC: Essa questão do sistema midiático em cada país está aos poucos aparecendo conforme o projeto evolui. Teremos alguma coisa já nessa publicação que mencionei antes (a ser publicada em 2015). A partir da apresentação dos dados, esperamos conseguir trazer nossos resultados para a discussão deles em cada um dos países. No ano que vem, por exemplo, o encontro anual do nosso projeto deve acontecer no Rio de Janeiro, no período da Conferência Nacional da Intercom. Até lá, teremos alguns resultados importantes para compartilhar.

DI: No Brasil, tem sido ampliado o debate sobre regulação da mídia nacional, ainda restrito a espaços como universidades e movimentos sociais. A mídia corporativa, por sua vez, reforça que não tem interesse no tema e considera “censura” toda forma de regulação. Foi possível verificar um funcionamento mais parecido ou mais distante do que o brasileiro, em cada um dos demais países que integram o BRICS?

LC: O debate sobre a regulamentação da mídia corporativa no Brasil é definitivamente importante, considerando as situações de controle governamental na Rússia e China e um ambiente menos controlado na Índia e África do Sul. Por estarmos focando na questão jornalística, por enquanto não temos resultados nesse aspecto. Mas as reuniões anuais geraram algumas discussões importantes sobre como abordar a questão de regulamentação e censura. Vamos usar essas discussões para pautar nossos próximos passos na pesquisa.

DI: Comparando Brasil e África do Sul (último a entrar no BRICS, em 2011), os dois países possuem histórica discriminação contra suas populações negras. Na África do Sul, o fim do apartheid é um marco mais recente do que a abolição da escravidão em nosso país. Através da pesquisa, foi identificada a subrepresentação de negras e negros na mídia sul-africana em geral, fato recorrente no Brasil?

LC: Infelizmente não estamos lidando com a questão do conteúdo no projeto em geral. Mas o projeto gerou uma conexão bacana entre pessoas envolvidas para projetos meio que paralelos. Por exemplo, um grupo de professores e pesquisadores está trabalhando agora em um livro sobre a questão da produção de teledramaturgia nos BRICS. Acredito que nesse trabalho surgirão questões relacionadas à representação em contextos de preconceito e desigualdade social. Mas infelizmente não tenho previsão de quando esse livro estará disponível.

DI: A partir da instalação de um banco operado pelos países integrantes do bloco, você acredita que também poderia haver um esforço visando à criação de uma espécie de fórum entre os sistemas de mídia dos cinco países?

LC: Essa definitivamente é uma ótima ideia. Talvez algo parecido com o Fórum Social Mundial onde a sociedade civil e movimentos sociais se encontrassem para discutir a questão da mídia em cada um dos países. Seria uma coisa muito bacana mesmo. Se poderia acontecer, eu não sei. Mas definitivamente seria muito importante.

DI: Tendo por base o relatório com as conclusões do estudo, o que você considera prioridade visando a ações articuladas entre profissionais, entidades do setor e governos?

LC: Nós ainda não temos conclusões. Mas – muito pessoalmente – espero que os resultados saiam das gavetas e prateleiras universitárias pra contribuir com debates entre pesquisadores, governos, jornalistas e empresas. Considerando as coisas como são, ter um diálogo dessa amplitude parece utópico, mas precisamos contribuir de alguma forma, certo? E é nesse caminho da contribuição para o debate crítico que o projeto BRICS se insere.