A persistente relevância de “Pele Negra, Máscaras Brancas”

A relevância do clássico Pele Negra, Máscaras Brancas, de Frantz Fanon (disponível em português aqui), continua até hoje, 65 anos depois da sua primeira edição em francês. Por esse motivo, a nova edição da Pluto Press, em inglês, é definitivamente bem-vinda.

A versão original deste texto foi publicada no site LSE Review of Books, da London School of Economics and Political Science (LSE), de Londres. Ler aqui.

Frantz Fanon (1925-1961)

Em Pele Negra, Máscaras Brancas, a análise auto-reflexiva, filosófica, poética, literária, discutivelmente clínica e, acima de tudo, política de Fanon ainda é um trabalho influente.

O livro é parte fundamental das diversas lutas e discursos intelectuais-ativistas que agem para denunciar e contestar os efeitos do racismo pessoal, interpessoal e institucional nas vidas e mentes de pessoas negras nos dias de hoje.

A minha própria ignorância – ou ‘alienação‘, nas palavras de Fanon – sobre a existência do livro serve como exemplo para a continuada relevância de Pele Negra, Máscaras Brancas.

A primeira vez que eu – um homem negro com educação superior nascido em uma antiga colônia e vivendo na branca Finlândia – ouvi falar do trabalho de Fanon foi no final de 2016.

Naquele momento, eu tinha escrito um texto (aqui) como resposta à acadêmicas e ativistas feministas negras brasileiras que têm analisado extensivamente a relação entre o racismo e a solidão da mulher negra no país.

Naquele texto, eu refleti sobre como eu consciente e inconscientemente reproduzia ideias e comportamentos racistas ao crescer.

Em reação ao meu texto, uma colega universitária brasileira me perguntou: ‘Você já leu Pele Negra, Máscaras Brancas, de Frantz Fanon? Pois deveria.’ Seu tom de ordem fez sentido quando li uma das edições anteriores do livro.

Eu não tinha ideia da existência de um livro que teorizasse os fatos desconfortáveis do racismo que eu tinha vivido e/ou reproduzido como negro privilegiado na extremamente racista sociedade brasileira.

Apesar de ser a maior diáspora africana no mundo, muitas das coisas consideradas ‘normais’ e ‘positivas’ no Brasil – por exemplo, aparência física, maneiras, música, religião, linguagens, política e outras arenas de relações sociais de poder – refletem tanto o colonialismo europeu histórico quanto a hegemonia contemporânea de valores norte-americanos e europeus ocidentais no mundo neoliberal.

Em contextos como o Brasil e outras sociedades pós-coloniais atualmente, aqueles que denunciam o racismo tendem a ser vistos como híper-sensíveis (mimimi) e radicais.

Em muitos casos, pessoas negras aprendem desde pequenas que o racismo existe, mas que ‘trabalho duro’, educação ‘adequada’ e ‘bom’ comportamento são fundamentais para evitar sofrer suas consequências.

Mais importante, pessoas negras também internalizam e reproduzem atitudes racistas. Em outras palavras, os problemas que Fanon analizou originalmente em 1952 continam hoje, seis décadas depois.

Um dos destaques da nova edição de Pele Negra, Máscaras Brancas é a introdução do sociólogo negro inglês Paul Gilroy.

Apesar das experiências de pessoas negras em contextos de predominância branca ainda serem reconhecíveis atualmente, o texto de Fanon ás vezes é denso e difícil de ler, especialmente para aqueles pouco familiarizados com textos acadêmicos em psicologia, psiquiatria e filosofia.

Neste sentido, a introdução de Gilroy coloca o trabalho de Fanon em contexto histórico e também analiza como o texto repercute nos dias de hoje.

Além de contextualizar, Gilroy também analiza algumas fraquezas (argumentativas, filosóficas e de tradução) do texto e avisa: “os elementos retóricos, poéticos e surrealistas devem ser lidos e interpretados com o maior dos cuidados para manter a complexidade e o estilo do original” (p. x).

A introdução do Gilroy, junto com os prefácios escritos por Homi K. Bhabha (1986) e Ziauddin Sardar (2008) – também disponíveis na nova edição – ajudam os novos leitores gerais, acadêmicos e ativistas de Frantz Fanon a navegar por seu primeiro livro publicado.

Para refletir sobre os impactos da colonização e da branquitude sobre negros das colônias (Fanon foca especificamente nas Antilhas, de onde ele é), Pele Negra, Máscaras Brancas combina análise literária, reflexões sobre experiências de vida e abordagens críticas sobre literatura acadêmica, especialmente de psicologia e filosofia.

Nos primeiros três capítulos, Fanon examina como estes impactos da colonização podem ser observados na linguagem e, controversamente, nas relações interraciais. Eu considero estes capítulos importantes porque problematizam a internalização e a reprodução da branquitude entre negras e negros pós-coloniais.

No Capítulo 4, Fanon questiona e critica a ideia de que a colonização aconteceu porque negros teriam um senso de inferioridade e até mesmo de um desejo inconsciente de serem colonizados e dependentes dos europeus brancos.

No capítulo 5, Fanon muda o foco para formas de resistência à branquitude entre negras e negros que desenvolvem e abraçam a consciência negra.

Nos capítulos 6 e 7, Fanon reflete sobre diversos fatores (simbólicos, materiais, interacionais e sócio-psicológicos) e desenvolve uma “explicação psicopatológica e filosófica sobre o estado de ser um Negro” (p. 6, ênfase no original).

No geral, além de descrever o livro como uma “busca por desalienação” (p. 192), Fanon conclui o livro com um chamado para pessoas negras e brancas para, juntas, “virar as costas para as vozes desumanas que foram aquelas de seus respectivos antepassados para que uma comunicação autêntica seja possível” (p. 199).

Como um homem negro criado numa sociedade pós-colonial, ler Pele Negra, Máscaras Brancas tem sido uma experiência emocional e iluminadora.

Me sinto assim especialmente porque eu percebo o quanto minhas próprias contradições que tive a vida toda vivendo num mundo branco me cegam para o fato de nem ao menos saber da existência do livro.

Para mim, o livro de Fanon é uma companhia relevante para trabalhos mais recentes, como os de escritoras negras feministas como Angela Davis, bell hooks, Chimamanda Ngozi Adichie, Ana Maria Gonçalves, Djamila Ribeiro, Stephanie Ribeiro, Blogueiras Negras e tantas outras que escrevem em diversos campos literários.

Na verdade, seria interessante ver como, se vivo, um Fanon mais velho reagiria àqueles que identificam machismo- especialmente contra as mulheres negras (Bergner 1995) – e homofobia (Moore-Gilbert 1996) no seu primeiro livro.

Deixando hipóteses impossíveis de lado, o livro de Fanon se mantém relevante porque provoca pessoas negras e brancas a confrontar as formas poderosas através das quais o racismo estrutural afeta mentes, relacionamentos e políticas do cotidiano num mundo que se mantém extremamente desigual e violento em torno de relações raciais.