Ocupação Policial da Lagoa (Magé): a PM fez a parte dela. Qual é a nossa?

(Originalmente publicado como atualização de status no Facebook em 02/04/2014)

Ontem (1 de Abril), a polícia militar fez uma operação policial na Lagoa, no Centro de Magé (minha cidade natal).  A ação foi um passo importante no combate ao crime que cresce na cidade. Mas não é a única coisa que precisa ser feita para a cidade melhorar de fato. Pra isso,  não basta só a PM agir. A prefeitura e principalmente nós – cidadãos – temos que lutar por uma Magé melhor.

Ao ler comentários sobre a ocupação, uma coisa me preocupou: o novo comandante está aos poucos sendo tratado como herói. Isso é um erro.

Algo que diferencia o centro de Magé das favelas é que a relação da PM com a população é de muito mais diálogo e respeito.  Como a cidade é pequena, as pessoas se conhecem e isso torna esculachos e abusos de autoridade muito menos recorrentes em Magé do que no Rio.

Mas mesmo tendo um bom relacionamento é preciso lembrar sempre que PMs não são salvadores da pátria. O trabalho do novo comandante (e dos soldados) merece crédito principalmente comparado aos comandos anteriores. Mas ele é competente no seu trabalho. Não é o herói que vai salvar Magé.

Esse tipo de atitude gera um problema inclusive para os PMs: as pessoas acabam esperando e exigindo que eles sejam responsáveis por resolver tudo (bem-estar, educação, corrupção, etc.). E não são. Tratar um comandante militar e seus soldados como heróis é criar uma expectativa muito maior sobre o trabalho da PM do que o que ela de fato tem que fazer.

Aí entra a função da prefeitura (como administração), dos vereadores (como fiscalização) e a nossa como cidadãos.

Ocuparam a Lagoa, e agora?

A prefeitura deve ir lá e criar estratégias para que o bairro não seja mais largado como sempre foi.  A qualidade das escolas lá dentro precisa melhorar. O saneamento lá dentro precisa melhorar. As opcões de lazer lá dentro precisam melhorar.

Nada disso é função da polícia, mas da prefeitura.

Aos vereadores, cabe fiscalizar pra garantir que a prefeitura defenda os direitos da população.

Se tu é de Magé, tu deve ter morrido de rir ao ler isso.  Afinal, a gente sabe o quanto a administração e a fiscalização são corrompidos. O quanto eles só interessam pelos seus próprios projetos de poder e muito pouco na cidade e nos seus habitantes.

Então quem vai fazer a diferença? NÓS CIDADÃOS.

A primeira coisa é não tratar a Lagoa ou outros bairros periféricos com preconceito. A gente não pode cometer o mesmo erro de criminalizar esses bairros como criminalizamos as favelas no Rio. Essa criminalização é o que faz as favelas sofrerem tanto com políticas de repressão e abusos por parte do Estado.

Então acho que podemos parar de falar da Lagoa como “lugar de bandido” ou de tratar seus moradores com pena tipo quando falamos sobre “o povo humilde”, “a população carente”, etc. Isso é problemático.

Somos todos cidadãos. Temos vidas diferentes, mas compartilhamos o mesmo lugar, a mesma cidade. Temos que parar de tratar cidadãos da nossa periferia como pobres coitados ou como se fossem coniventes com a criminalidade. Quer dizer: chega de tratar o povo das periferias de Magé com preconceito.

A segunda coisa é parar de dizer “precisamos ajudar” ou “ter solidariedade” com o povo da Lagoa.  Na moral, eles não precisam da nossa ajuda. Eles já lutam! O que eles precisam é de apoio nas suas lutas. Do mesmo modo que a gente precisa do apoio deles nas nossas lutas por nossos bairros.

A gente precisa se unir e juntos, no diálogo, planejar estratégias de ação por nossa cidade. Não tratar os mais pobres como dependentes de nós só porque eles são pobres.

A terceira coisa é aproveitar o contexto favorável em Magé pra agirmos. Em Magé, a gente tem a vantagem – comparando com o Rio, por exemplo – de estarmos muito perto de quem administra e fiscaliza a cidade.  É muito fácil chegar ao prefeito e aos vereadores. É muito fácil abrir diálogo com o comando da PM.

O mais difícil é nós nos unirmos pra pressionar, cobrar e principalmente colaborar uns com os outros para que grupos de bairros diferentes criem redes de colaboração e desenvolvimento na cidade.

É muito menos uma questão de denunciar. A gente sabe que isso é perigoso em Magé.  Mas de trocar experiências, de agir juntos e de contribuir por uma cidade melhor não só no Centro, mas nos distritos e nos bairros pobres da periferia.

A PM ocupou a Lagoa. E agora? O que a gente faz?

A primeira coisa é mudar de atitude, formar redes e pensar estratégias pra agir.  Se não fizermos isso, se não botarmos a cara por nossa cidade, infelizmente o bom trabalho inicial de combate da PM vai por água abaixo. A diferença, a mudança social de fato, está mais em nós do que no trabalho da polícia.