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Conto Escrevivência Português

Irmãos

Um conto negro baseado em sentimentos reais. Escrito em Português da Baixada Fluminense, Rio de Janeiro. Leonardo Custódio é doutor em ciências sociais e pós-doutorando na Åbo Akademi University, na Finlândia. Cria de Magé.

CAPÍTULO 1

Dois pretinhos se encontraram na esquina. 

Inevitável. 

Desconfortável. 

Apertaram as mãos. 

Antes se abraçavam. 

“Fala aí”, disse o militar. 

“Fala tu. E o trabalho?”, 

perguntou o universitário. 

“Escala tranquila, plantão sossegado. 

E tu, professor?” 

“Professor nada, bolsista. Mestrado.” 

Seguiram calados até o churrasco. 

“Vou ali.” 

“Vai lá.” 

Separaram. 

De amigos ouviram: 

“Que bom! Conversaram.”

CAPÍTULO 2

Churrasco animado. 

Do pai, aniversário. 

Do filho, batizado. 

Geral convidado: 

família, amigos, vizinhos, 

colegas de trabalho. 

Por isso os pretinhos voltaram. 

Há anos se mudaram. 

“Vai com Deus, irmão”, se desejaram. 

Hoje, não se falam. 

Um lá outro cá. 

Bebem e riem com outros. 

Entre si, rancor. Mágoa. 

Desgosto. 

Olhares trocados ao acaso. 

Semblantes sempre fechados.

CAPÍTULO 3

A cerveja acabou. 

Passou-se o chapéu. 

O sol caía. 

Avermelhava o céu. 

Pagode e samba. 

Bêbada dança. 

“Logo você” toca. 

Xande canta. 

O militar se agita. 

Grita: 

“Aí, comédia! 

Ativista de Face! 

Universitário de merda!”

Riso debochado. 

“Ih! Otário! 

Cortaram tua propina, 

pau-mandado?” 

Se encaram com raiva. 

“Tava demorando”, diz a Tia. 

Preocupavam.

CAPÍTULO 4

Tentaram segura-los. 

Em vão. 

Se encaram. 

Dedo em riste. 

Copos na mão. 

“Vacilão! 

Fala mal de polícia! 

Defende ladrão!” 

“Defendo justiça! 

Matam pobre pra patrão!” 

“Patrão!? 

É guerra, cuzão!” 

“Guerra!? 

Cês pegam propina! 

Armam o tráfico! 

Alugam caveirão!” 

“Caô! Tu vive a farda? 

Acorda! 

Tanto livro pra nada!” 

Mulheres gritam: 

“Gente! Separa!” 

Choro. Tensão.

CAPÍTULO 5

“O que deu nesses meninos!?”,

uma avó se preocupava. 

“Eram tão amigos.” 

“Têm uns quatro anos nisso. 

Era só no Face. 

Agora ao vivo,” 

explicou uma neta cansada. 

“Mas qual o motivo?” 

“Um troço político. 

Os protestos foram o início. 

Um mais certo que o outro pelo visto.” 

“E agora cara-a-cara. 

Na cachaça. 

Ai Deus… 

tô com medo disso…” 

disse a avó. 

Transtornada.

CAPÍTULO 6

A música parou.

A tensão aumentou. 

Olhos nos olhos. 

Vermelhos de ódio. 

“Tu se acha melhor que a gente. 

Estudou. 

Enbranqueceu. 

Aplayboyzou”, rosnou. 

“E tu?! 

Veste a farda, 

pega a arma 

e pensa que é Deus. 

Herói de playboy, 

diabo dos teus”, sussurrou. 

Cuspiu-lhe a cara. 

Uma cabeçada levou. 

O sangue escorreu. 

Um soco deu. 

Gritaria. 

Horror.

CAPÍTULO 7

“Parem já com isso! 

Afasta! 

Chega dessa palhaçada!”, 

a Tia se jogou. 

Entre eles parou. 

Braços os puxaram. 

Pararam. 

Tia por assim dizer. 

Parentesco não tinha. 

Mãe do aniversariante. 

Dos pretinhos, vizinha. 

Cresceram juntos. 

Da escola pra casa. 

Pai e mãe no trabalho. 

Na casa da Tia esperavam. 

Ela foi, tipo como, 

mãe coletiva. 

Os viu crescer. 

Deles tudo sabia. 

Agora chorosa 

os colocaria na linha.

CAPÍTULO 8

“Que vergonha! 

Quanta ignorância! 

Ó o exemplo pras crianças”, 

esbravejou a Tia. 

“Dois irmãos! 

De cor! 

De vida! 

Nada justifica essa briga! 

Um in-te-lec-tu-al. 

Outro po-lí-ci-a. 

Status, cartaz… 

mas cabeça ó: vazia! 

Feito bichos. 

Tanto sacrifício…” 

“Mas, Tia. Ele qu…” 

“Cala a boca, em nome do Senhor Jesus Cristo!”

Olhos arregalados. 

“Agora vão ouvir. Tô só no início!”

CAPÍTULO 9

“Quando eram pequenos, qual era a rotina? 

Polícia vinha. 

Prendia. 

Batia. 

Gente morria. 

Covardia. 

E universitário? 

Não se via. 

Vez ou outra aparecia. 

Fazia pesquisa. 

Perguntava e sumia. 

Dos nossos não tinha. 

Só branquinho, barbinha… 

Aí vocês estudaram. 

Passaram. 

Nossa! Quanta alegria! 

Lembram? 

Vai e faz diferença, pretinho! 

Todo mundo dizia”

Sorrriso. 

Nostalgia.

CAPÍTULO 10

 “De onde vem tanto veneno? 

Não entendo! 

Se mudaram. 

Não se veem faz tempo” 

“Eles brigam no Face direto, Tia”, 

se meteu uma prima. 

“É! Tô sabendo! 

Se xingam pela profissão. 

Mas e o que SÃO por dentro? 

Tinham várias ideias para mudar o bairro. 

Meninos de sonhos.

Eu lembro! 

Mas não. 

Atrás do diploma e da farda ficam se escondendo. 

Ajudar? Não. 

Só ostentam: 

autoridade e conhecimento. 

Marrentos. 

Me digam: 

que diferença tão fazendo?”

Silêncio.

CAPÍTULO 11

Tia virou as costas. 

Saiu.

A cigarra cantou e parou. 

Ninguém ouviu. 

Os pretinhos se olhavam. 

Calados. Bêbados. 

Humilhados. 

Pelo portão saíam convidados. 

Moças varriam o quintal. 

Outras lavavam louças. 

“Pelo menos não se mataram”, 

ponderou a avó, mais calma. 

“É. mas ficaram como? 

Arrasados. 

Já foram embora?” 

“Sim, já era hora.” 

“E agora? 

Como será que fica essa história?” 

Juntaram o lixo, secaram a pia, 

bateram a porta.

CAPÍTULO 12

Os pretinhos se encontraram na esquina. 

Inevitável. 

Desconfortável.

O universitário esticou a mão. 

O policial abriu os braços. 

Se puxaram na nuca. 

Forte abraço. 

Lágrimas nos olhos. 

“Po, irmão. Foi mal aquele dia. Desculpa” 

“Não foi só culpa sua.”

Se beijaram no rosto. 

Nas costas, socos.

Braços cruzados sobre o pescoço. 

Andavam rápido. 

Estavam atrasados. 

“Feliz aniversário, Tia!”,

falaram em coro. 

“Finalmente! 

Agora sim, gente!

Meus filhos chegaram! 

Vamos cortar o bolo!” 

recomeço…